Como a liberação dos agrotóxicos afeta nossa vida?
Frequentando uma feira orgânica na semana passada ouvi de uma feirante “aqui representamos a resistência”. A frase a princípio parece ter vindo da boca de um idealista radical, mas faz sentido quando nos deparamos, no último dia 22, com a notícia da liberação de mais 51 agrotóxicos. Essa notícia realmente pega alguém de surpresa? Quem acompanha o tema vai responder que não. A liberação vem aumentando ao longo dos anos. Foram liberados 405 em 2017 e 422 em 2018. Até agora, em 2019, somam 290, lembrando que faltam 5 meses ainda para terminar o ano e que, entre janeiro e julho do ano passado, o governo já havia liberado 229 novos produtos. Portanto a conta de 2019 pode ultrapassar ainda mais os dados de 2018. O que isso significa para nós: mais veneno nos nossos pratos. O que isso significa para nossa saúde? Não tenho dados técnicos aqui para apresentar, mas você e eu devemos concordar que isso não pode ser bom.
Você já pensou se existe a fiscalização necessária para saber se as quantidades máximas para aplicação tem sido respeitadas? Sabia que existe um tempo entre a aplicação e a colheita que deve ser respeitado? Você imagina que existe fiscalização para saber se esse tempo mínimo foi respeitado nas verduras que você consumiu hoje no almoço?
Ao ler as notícias, vemos que simplesmente estamos indo na contramão mundial. Uma matéria publicada no mês passado pelo jornal francês Le Monde trouxe meia página sobre o Brasil. O artigo alerta, com preocupação, para o possível impacto na saúde da população com a liberação de agrotóxicos pelo governo brasileiro. O texto relata também o boicote de uma rede sueca aos produtos brasileiros, justamente em razão da presença dos agrotóxicos. O Brasil já é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo em números absolutos. Vale lembrar que destes produtos liberados, 7 são produtos formulados, ou seja, produtos que os agricultores podem comprar livremente em lojas de insumos agrícolas. Como a compra deliberada desses produtos pode impactar nos alimentos que consumimos?
Vale registrar por aqui também que um carregamento de soja brasileira foi bloqueado em fevereiro na fronteira da Rússia por ter ultrapassado os limites autorizados de resíduos de glifosato, o controverso herbicida acusado em vários estudos de provocar câncer, dados também da matéria publicada no Le Monde. Você sabe o real impacto que estes nomes tem em sua saúde? Eu também não.
Enfim, se você chegou até o final desse longo texto, deve concordar que não temos a real noção do que estamos consumindo, não sabemos o impacto que cada agrotóxico pode ter em nossa saúde e do planeta. Mas acende a luz vermelha para pensar que precisamos prestar mais atenção no que colocamos em nossa mesa. Você tem a real noção de onde vieram os alimentos que você consumiu hoje? Não se trata de radicalismo, ativismo político ou coisas do gênero. Vou trocar aqui a palavra resistência pela palavra mudança, a opção real de saber o que colocamos dentro de nossa boca e da boca de nossa família. Consumir orgânicos, diretamente dos produtores em feiras ecológicas é uma ótima opção. Fomentar pequenas economias pode impactar diretamente em quem não está pensando no que coloca em sua mesa. Bora fazer parte da mudança?

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